Disputa entre EUA e China deve ter efeitos negativos no agro brasileiro

China poderá cobrar taxas para importação de grãos dos Estados Unidos, como o milho

Fonte:DCI-MARCELA CAETANO/

A guerra comercial entre China e EUA poderá ter um impacto negativo no agronegócio brasileiro, especialmente no mercado de soja, principal produto exportado pelo Brasil aos chineses neste setor.

Embora ainda existam incertezas quanto à aplicação de tarifas sobre o grão norte-americano, já é possível ver os reflexos desse cenário no mercado brasileiro. “Os prêmios nos portos, que estavam fortalecidos com a quebra na safra argentina, ganharam novo fôlego com o anúncio da possível taxação”, explica a analista de mercado da INTL FCStone, Ana Luiza Lodi.

O Brasil exportou no ano passado 53,8 milhões de toneladas de soja à China – ou 58% das 93,4 milhões de toneladas adquiridas pelos chineses, enquanto os Estados Unidos responderam por 38% desse total.

A soja do contrato com vencimento em maio está sendo negociada com prêmio de US$ 1,30 por bushel no Porto de Paranaguá, no Paraná. O valor chegou a US$ 1,50 por bushel logo depois do anúncio da retaliação chinesa. “Esses valores devem ter novos picos se forem anunciadas novidades sobre a negociação entre os países”, avalia Ana Luiza.

Desde que a taxação foi anunciada, os chineses ampliaram a procura pelo produto norte-americano, aproveitando a trégua antes da possível tributação. Ao mesmo tempo, o interesse no produto brasileiro cresceu, visto que a Argentina terá uma quebra de safra expressiva, o que, ainda que a safra brasileira tenha projeção recorde, amplia a demanda pelo produto brasileiro.

“Dificilmente a China vai deixar de depender completamente da soja norte-americana e a tendência é que, se as taxas entrarem em vigor, o Brasil tenha uma relação de oferta e demanda muito apertada”, avalia. A INTL FCStone estima que a safra brasileira da oleaginosa atingirá o volume recorde de 115,9 milhões de toneladas nesta temporada.

O consultor de comércio internacional da Barral M Jorge Consultores Associados, Matheus Andrade, salienta que há uma perspectiva de aumento das exportações da oleaginosa para a China, mas ainda há incertezas, uma vez que a capacidade brasileira de substituir os Estados Unidos no fornecimento do grão é limitada. “Ainda não está claro para o mercado o quanto o Brasil poderia contribuir”, afirma.

Em relatório divulgado ontem, o analista sênior de agronegócios do Itaú BBA, Guilherme Bellotti, avaliou que, se aplicado, o aumento tarifário não duraria por muito tempo justamente pela dificuldade de encontrar volume semelhante em outros mercados que não o dos Estados Unidos.

O gerente de mercado da Informa FNP, Victor Carvalho, acredita que haveria um impacto significativo nas cotações da commodity com o aumento da demanda chinesa pelo produto brasileiro se a taxação se confirmar. “Acredito que o preço da soja norte-americana deve recuar com uma maior oferta no mercado interno. Neste cenário, não descarto a possibilidade de que o Brasil venha a importar o grão dos Estados Unidos para poder atender à demanda doméstica e exportar mais o grão brasileiro”, prevê.

“A China pode se prejudicar tendo que comprar soja mais cara. Mas tudo vai depender da tarifa ser de fato aplicada, uma vez que esta é uma questão política e não técnica”, pondera.

Caso esse cenário projetado por ele se concretize, Carvalho avalia que subprodutos como farelo, por exemplo, poderiam ter uma valorização no mercado interno, deixando ainda mais delicada a situação de criadores de suínos e aves, que já lidam com aumento das cotações do milho e da soja no mercado interno. Nos últimos 30 dias, o indicador Cepea/Esalq aumentou 8% no Paraná, para R$ 80,57 a saca de 60 quilos.

 

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