Ritmo de venda de janeiro adia sonho da retomada

O aumento no ritmo de produção de veículos nos dois últimos meses de 2016 deu um alento a especialistas que analisam essa indústria. Parecia que, depois de três anos de crise, o setor voltava a respirar. Mas as vendas no mercado interno nos primeiros dias de janeiro esfriaram os ânimos. O volume de emplacamentos até o dia 26 ficou 3,6% menor do que em igual número de dias de um ano atrás, um dos piores meses da história recente do setor. E a média diária ficou 13,7% abaixo em igual período, segundo dados do setor. Mesmo assim, a Anfavea, a associação dos fabricantes, comemora o fato de 2017 ter começado num cenário macroeconômico melhor do que 2016, o que a leva projetar um primeiro trimestre de estabilidade. Mas o sonho do início da recuperação ficou para a segunda metade do ano.

O surpreendente crescimento da produção de veículos em dezembro, de 40,6% em relação ao mesmo mês de 2015, que provocou impacto até em medições da atividade industrial do país, ocorreu por vários motivos. Primeiro, produziu ­se mais para ajustar estoques nas revendas a níveis que essa indústria considera aceitáveis. Nem em tempos de crise o espírito de competição entre marcas permite a falta de algum modelo nas lojas.

Segundo a diretor a­geral da Peugeot, Ana Theresa Borsari, no último mês do ano mais de 30% dos veículos vendidos em todo o país foram adquiridos por pessoas jurídicas. A média, em geral, gira em torno de 20%. Isso elevou a média diária de licenciamentos de 8 mil para mais de 9 mil veículos em dezembro. Em janeiro de 2016 a média foi de 7,4 mil e neste janeiro caiu para 6,3 mil. “A crise é mais profunda do que imaginávamos”, afirma a executiva.

O mercado interno é o que guia essa indústria, já que quase 80% dos veículos que saem das linhas de montagem ficam no próprio país. Por isso, o quadro na indústria permanece inalterado: fábricas de carros e de autopeças operam com mais de 50% de ociosidade, e as de caminhões e ônibus, com 75%. Mais de 7 mil empregados continuam afastados em sistema de “layoff” ou PPE e muitas empresas continuam dando folga aos operários às sextas-feiras. Caso da Ford em São Bernardo do Campo (SP), onde parte dos trabalhadores se reveza nas linhas de carros e caminhões para ocupar o tempo.

“Assistimos a uma tendência de redução da indústria desde 2013”, afirma o vice presidente da Ford na América do Sul, Rogelio Golfarb. “Fechamos o ano com tendência de contração e começamos 2107 igual; não há sinais de inflexão dessa tendência”, destaca.

Para alguns, ouvir o telefone tocar já anima. O vice ­presidente de vendas da Mercedes ­Benz, Roberto Leoncini, diz sentir que “o ambiente de negócios” começa a voltar, talvez estimulado pela boa safra, que já se refletiu nas vendas da indústria de máquinas agrícolas. As empresas de transporte menores são as que começaram a ligar para fazer consultas de preços.

Já nas grandes boa parte da frota continua encostada.

O mercado externo surge como um alento. A Mercedes foi buscar no Oriente Médio clientes interessados no Accelo, um caminhão inicialmente projetado para estradas brasileiras. “Estamos com a pastinha embaixo do braço”, diz Leoncini.

Também a Ford iniciará hoje o terceiro turno de produção de carros em Camaçari (BA) para atender a um aumento de demanda da Argentina. O volume de veículos exportados cresceu 24,7% em 2016 e as previsões dos fabricantes indicam um avanço de pelo menos mais 7% este ano.

“O mercado externo está melhor, mas não é suficiente para neutralizar a queda da demanda interna”, afirma Golfarb. “É preciso olhar os números friamente e tirar um pouco das ilusões provocadas pela bolha do fim do ano”, destaca o executivo.

Em três anos, a produção de veículos no país encolheu 42%. Mas, se de um lado a indústria automobilística ainda não tem números positivos para mostrar, a estrutura macroeconômica do país a ajuda a embalar esperanças de que a recuperação está a caminho.

Apesar das vendas fracas em janeiro, o presidente da Anfavea, Antonio Megale, mostra otimismo em relação aofuturo.

“Apostamos numa estabilização no primeiro trimestre com viés de crescimento”, diz. “Vivemos três anos de queda; a recuperação não se conquista da noite para o dia”.

Para Megale, o governo tem conseguido organizar a economia. Ele aponta a aprovação da PEC do teto dos gastos e a expectativa em torno das reformas da Previdência e trabalhista. “São fatores que nos permitem olhar o futuro com otimismo e prever que a partir de uma relativa estabilidade o consumidor começará a se sentir confortável para comprar bens duráveis”.

No segmento de veículos comerciais, o diretor comercial do Banco Mercedes­-Benz, Diego Marin, aponta a expectativa em torno de regulamentação de mudanças no Finame, a principal linha de financiamento de caminhões, que ampliou o universo de empresas com acesso aos planos com taxas mais baixas.

A fraca demanda não permite repassar aumentos de custos, como o aço, que subiu recentemente. Segundo Klaus Curt, presidente da Anip, entidade que representa os fabricantes de pneus, não houve repasse da alíquota do Imposto de Importação da borracha natural em outubro e a entidade tenta convencer o governo a revogar a medida sob o argumento de que a produção nacional atende só 36% da necessidade.

As montadoras oferecem financiamento subsidiado como chamariz. Há várias promoções com taxa zero de juros. Mas nem isso tem ajudado. “As famílias estão com dívidas de dois anos atrás, uma época em que se vendiam sonhos”, afirma o gerente de vendas da Citroën, Edgard Alexandrino. (Valor Econômico/Marli Olmos)

Fonte: Canal DANA/Valor Econômico

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